05/03/10

coisas do camandro

Há coisas do Camandro. Nos inícios do passado mês de Outubro de 2009, por altura em que começavam a cursar o 1º semestre do 1º ano de mestrado em estudos artísticos, variante de cinema, um grupo de colegas tomou numa dessas sextas-feiras originais a decisão irreflectida de ir almoçar ali perto da faculdade, precisamente à varanda do complexo de inspiração religiosa Justiça & Paz, para de lá, durante as duas horas de intervalo entre seminários, poderem, enquanto repastavam, gozar as vistas e ocuparem o restante tempo morto a cavaquear e a verter sobre ele autênticos chorrilhos de impropérios, não raramente disfarçados de ideias, algumas até defendidas de forma demasiado viva e entusiasta.


A estas ideias assistia algo assaz interessante, como se secretamente teimassem em seguir um mesmo padrão, é que, quer tratassem ou não tratassem da mesma coisa, quer fossem da mesma família ou não, acontecia que elas eram propostas por cada um como se se estivesse a propor um indecoro, uma anedota ou um impossível, chegando mesmo muitas vezes a dar lugar a verdadeiros concursos de enormidades em que cada um dos idiotas se esmerava por apresentar uma ideia ainda mais improvável que o anterior. Bem, concerteza que aquando deste início, destes primeiros almoços destas sextas-feiras originais, ninguém ainda poderia prever aonde é que esta brincadeira havia de ir dar. Mas, se deu no que deu, por certo que foi porque todos ali se entregaram a sério por tanto a quererem jogar.


Pouco faltou para que perante tanta idiotia desarmante começasse a haver o bom senso de a anotar, mas só pela desfaçatez de a seguir lhe poder vir a dar corpo e nome e vida própria.

O que é que é melhor que ir ver um filme que queremos muito ver? Melhor, é ir ver um filme que não sabíamos que queríamos tanto ver. Melhor ainda é ir ver um filme do qual não façamos a mínima ideia qual é. Melhor que tudo é que em vez de sermos nós a escolhê-lo a ele, seja o filme que nos escolha a nós e a nós por ele.


E foi isto. Chamámos-lhe Roleta Russa. Inicialmente, seria assim: cada um de nós ficava incumbido de escolher um filme para o resto da audiência, escolha essa que permaneceria em segredo até ao momento da exibição, até ao momento da projecção, até ao genérico inicial, só aí é que cada espectador teria direito à revelação. Mas foi aqui que nos surgiu uma dica que viria a fazer toda a diferença e a selar em definitivo o conceito deste jogo. O nosso Professor Abílio Hernandez, logo da primeira vez que ouviu da Roleta, assim, ainda em esboço, perguntou: “E se os filmes se sorteassem lá, a breves momentos do início da projecção?”, daqui a chegarmos a conceber vários meios e intrincados engenhos mecânicos (incluindo uma roleta verdadeira movida a um pedal de triciclo) para que se sorteasse lá, a instantes da sessão, o filme a projectar, foi um nada.

Faltava-nos só ter aquela estrela que faz os predestinados e de nos calhar em sorte o espaço que fosse de todos o sítio perfeito para que nele tivesse lugar esta descarada encenação da fatalidade. E tivemo-lo. Foi no mítico teatro-estúdio da Cooperativa Os Bonifrates.


Até hoje tiveram lugar duas sessões da Roleta Russa e, nem de propósito, as duas sob o signo do eterno enfant-terrible do Cinema, uma vez que, de cada vez, e de entre dezenas de filmes levados a jogo, a roleta disparou o Éloge de l’Amour (2001) e o Bande à Part (1964), ambos do Monsieur Jean-Luc Godard.


Entretanto, à beira da sua 3ª edição, e por causa dos próximos projectos da Cooperativa Os Bonifrates os obrigarem a ter que ocupar as suas instalações de forma mais assídua, a Roleta vai mudar de poiso, vai descer à zona velha, vai aterrar na baixa de Coimbra, e assim, nas próximas sessões, gozar da hospitalidade do espaço Arte à Parte. De resto, a ideia é a mesma:

num dado dia, a uma dada hora, vai haver, de uma pilha de filmes, um que vai ser disparado à sorte pelo acaso, para que, de uma vez por todas se assuma aquilo que na verdade sempre aconteceu e nunca parou de acontecer desde que há cinema, e isto é: desde o primeiro momento em que um filme tocou uma pessoa,


é que, apesar de parecer sempre o contrário, que somos nós que escolhemos os filmes que vamos ver, ainda por cima nós que estamos ali irremediavelmente sós apesar de invariavelmente acompanhados, deixados ali só connosco e por nossa conta (mais a nossa condição mortal a lembrar-nos da nossa condição mortal), calados e submersos numa sala escura, e ali obrigados a olhar de frente para tudo o que cá fora não nos é posto à frente ou de que fugimos de olhar de frente, mas que de qualquer das formas nunca deixou de fazer parte daquilo que sempre fomos (mesmo que até ainda não o soubéssemos), nós, todos nós, sabemos que nunca na nossa vida fomos de facto nós que escolhemos um filme, mas foi sempre um filme que, naquele momento, e de toda aquela plateia, nos quis escolher a nós.

Assim, a Roleta Russa o que faz é só encenar a verdade, para que todos possamos continuar alegremente à vontade a fazer de conta.





*fotogramas do filme

Barton Fink

dos irmãos Cohen